" Eu sou o gato macaco, gato macaco, gato macaco..." Uma homenagem pouco discreta à gata da família, mas também alguns recortes para quem se interessa sobre antropologia
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quarta-feira, 25 de abril de 2012
Para cientista social ler 14
Vai crescer o número de animais confinados no Brasil, em uma proporção absurda - quase 20%, segundo projeções:
Brasil deve ter recorde neste ano no número de animais confinados
Sudão e Sudão do Sul começam a guerra - os dinka, os nuer, não saem da nossa cabeça....
Lembram do antigo post sobre o assunto?
Já essa notícia me fez lembrar do trabalho de iniciação científica com Hans Gunter Flieg. Na pesquisa, conversamos sobre a mudança que ele trouxe, lá por 1950-60, para a linguagem da publicidade brasileira ao fazer fotografias de produtos sem o uso do retoque americano.
Na época, o que ele fazia era um escândalo. Mas depois a prática (ou, a nova linguagem) foi absorvida.
Talvez o uso de celulares na produção de fotos artísticas/noticiosas esteja passando por um período semelhante.
Agora é o corre-corre na eleição francesa para buscar os votos dos radicais. Sarkozy (surpresa!) endurece seu discurso contra os imigrantes, buscando os votos (surpreendentes, chegaram a quase 18%) de Marine Le Pen.
E, para terminar, uma notícia dada pelo Estadão: Israel legaliza postos de colonos em solo palestino pela primeira vez em 20 anos...
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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Mudança na lei Rouanet
Nota do Ibram informa mudança na lei Rouanet, de forma que ela coincida com uma noção de museu 'ampliada'. Veja abaixo notícia que saiu aqui.
MinC inclui preservação de patrimônio museológico na Lei Rouanet
O Ministério da Cultura divulgou, esta semana, portaria que altera a Lei Rouanet (Lei 8.313/1991) e inclui a preservação ou restauração de patrimônio museológico entre os segmentos do patrimônio cultural que podem inscrever projetos no Programa Nacional de Apoio À Cultura (Pronac).
Somente os projetos enquadrados nos segmentos culturais previstos na Lei podem ser atendidos por doações e patrocínios beneficiados pela dedução integral do imposto de renda.
Com a alteração, fica mais claro que o conceito de museu está ampliado e passa a contemplar, inclusive, ações de museologia social. “Essa mudança reconhece um conceito mais amplo de museu. Agora ficou mais claro que o patrimônio museológico não é só o prédio do museu, mas envolve acervos, coleções e museus comunitários, que poderiam achar que não estavam contemplados pela Lei”, explica o presidente do Ibram, José do Nascimento Júnior.
No segmento “patrimônio cultural” já estavam inseridas as categorias “doações de acervos em geral a museus, arquivos públicos e instituições congêneres”; “preservação ou restauração de patrimônio material em geral”; “preservação ou restauração de acervos em geral”; “preservação ou restauração de acervos museológicos”; “preservação de patrimônio imaterial”; “manutenção de salas de teatro ou centros comunitários congêneres em municípios com menos de cem mil habitantes”; “manutenção de equipamentos culturais em geral”; “treinamento de pessoal ou aquisição de equipamentos para manutenção de acervos de museus, arquivos públicos e instituições congêneres” e “outras ações de capacitação”.
O detalhamento da Lei Rouanet foi uma recomendação do Tribunal de Contas da União. Com a portaria (nº 5/2012), além da alteração em “patrimônio cultural” também foram incluídos no segmento “artes visuais e artes digitais e eletrônicas”, as categorias “design e moda”, “formação técnica e artística de profissionais”, “projetos educativos orientados à fruição e produção de artes visuais”e “projetos de fomento à cadeia produtiva das artes visuais”.
Veja a íntegra da Portaria nº 5, de 26 de janeiro de 2012 (DOU de 30/01/2012)
Somente os projetos enquadrados nos segmentos culturais previstos na Lei podem ser atendidos por doações e patrocínios beneficiados pela dedução integral do imposto de renda.
Com a alteração, fica mais claro que o conceito de museu está ampliado e passa a contemplar, inclusive, ações de museologia social. “Essa mudança reconhece um conceito mais amplo de museu. Agora ficou mais claro que o patrimônio museológico não é só o prédio do museu, mas envolve acervos, coleções e museus comunitários, que poderiam achar que não estavam contemplados pela Lei”, explica o presidente do Ibram, José do Nascimento Júnior.
No segmento “patrimônio cultural” já estavam inseridas as categorias “doações de acervos em geral a museus, arquivos públicos e instituições congêneres”; “preservação ou restauração de patrimônio material em geral”; “preservação ou restauração de acervos em geral”; “preservação ou restauração de acervos museológicos”; “preservação de patrimônio imaterial”; “manutenção de salas de teatro ou centros comunitários congêneres em municípios com menos de cem mil habitantes”; “manutenção de equipamentos culturais em geral”; “treinamento de pessoal ou aquisição de equipamentos para manutenção de acervos de museus, arquivos públicos e instituições congêneres” e “outras ações de capacitação”.
O detalhamento da Lei Rouanet foi uma recomendação do Tribunal de Contas da União. Com a portaria (nº 5/2012), além da alteração em “patrimônio cultural” também foram incluídos no segmento “artes visuais e artes digitais e eletrônicas”, as categorias “design e moda”, “formação técnica e artística de profissionais”, “projetos educativos orientados à fruição e produção de artes visuais”e “projetos de fomento à cadeia produtiva das artes visuais”.
Veja a íntegra da Portaria nº 5, de 26 de janeiro de 2012 (DOU de 30/01/2012)
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Objetos, coleções...
Está difícil escrever algo do próprio punho aqui no blog. A maior parte das vezes é um clipping de coisas que eu acho interessantes.
Mas esse trio de reportagens, acredito, se ligam pela discussão da 'antropologia das coisas'.
Está em voga, como sabem, o renascimento de uma antropologia voltada ao patrimônio material. Eu mesmo estou andando por essa linha.
Na Folha de ontem (30.01.2012), havia uma micro-resenha do livro Design+Artesanato. O que achei interessante, é que o texto dizia que a autora do livro sugere que a 'revitalização' do artesanato brasileiro nos últimos anos foi possível graças ao estreitamento dos laços dos grupos produtores (artesãos) com designers. Estes últimos fizeram o "meio campo entre as comunidades e o mercado, contribuindo na comunicação e na gestão estratégica".
A crítica é essa, mas acho mais interessante ficarmos com a referência do livro:
EDITORA Terceiro Nome
QUANTO R$ 80 (240 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
LANÇAMENTOS qui. (dia 2), das 19h30 às 22h
ONDE A Casa - Museu do Objeto Brasileiro (r. Cunha Gago, 807, Pinheiros, tel. 0/XX/11 3814-9711)
A segunda reportagem é aquela clássica da vida e história dos objetos. O repórter da New York Times Magazine acompanhou pessoas que se desfaziam de seus instrumentos Stardivarius e que percebiam que, suas próprias trajetórias como músicos, eram muito menores do que a trajetória do instrumento que um dia tinha lhes pertencido. Achei muito bonita.
Na íntegra (em inglês), aqui.
Para finalizar, uma reportagem que achei super interessante do Estadão (29.01.2012). Um policial aposentado, de 82 anos e que foi o responsável pela prisão do Bandido da Luz Vermelha, entre outros, é o curador do Museu do Crime, no centro de São Paulo. O museu reúne fotos e narrativas de casos da cidade de São Paulo como "esquartejamentos, estupros, parricídios e crimes cometidos por tarados e assassinos loucos desde o século passado". Deve ser pesado, mas também deve valer a pena uma visita.
Na reportagem não está o endereço do local, vou ver se encontro e coloco aqui.
Mas esse trio de reportagens, acredito, se ligam pela discussão da 'antropologia das coisas'.
Está em voga, como sabem, o renascimento de uma antropologia voltada ao patrimônio material. Eu mesmo estou andando por essa linha.
Na Folha de ontem (30.01.2012), havia uma micro-resenha do livro Design+Artesanato. O que achei interessante, é que o texto dizia que a autora do livro sugere que a 'revitalização' do artesanato brasileiro nos últimos anos foi possível graças ao estreitamento dos laços dos grupos produtores (artesãos) com designers. Estes últimos fizeram o "meio campo entre as comunidades e o mercado, contribuindo na comunicação e na gestão estratégica".
A crítica é essa, mas acho mais interessante ficarmos com a referência do livro:
DESIGN + ARTESANATO - O CAMINHO BRASILEIRO
AUTORA Adelia BorgesEDITORA Terceiro Nome
QUANTO R$ 80 (240 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
LANÇAMENTOS qui. (dia 2), das 19h30 às 22h
ONDE A Casa - Museu do Objeto Brasileiro (r. Cunha Gago, 807, Pinheiros, tel. 0/XX/11 3814-9711)
A segunda reportagem é aquela clássica da vida e história dos objetos. O repórter da New York Times Magazine acompanhou pessoas que se desfaziam de seus instrumentos Stardivarius e que percebiam que, suas próprias trajetórias como músicos, eram muito menores do que a trajetória do instrumento que um dia tinha lhes pertencido. Achei muito bonita.
Na íntegra (em inglês), aqui.
Para finalizar, uma reportagem que achei super interessante do Estadão (29.01.2012). Um policial aposentado, de 82 anos e que foi o responsável pela prisão do Bandido da Luz Vermelha, entre outros, é o curador do Museu do Crime, no centro de São Paulo. O museu reúne fotos e narrativas de casos da cidade de São Paulo como "esquartejamentos, estupros, parricídios e crimes cometidos por tarados e assassinos loucos desde o século passado". Deve ser pesado, mas também deve valer a pena uma visita.
Na reportagem não está o endereço do local, vou ver se encontro e coloco aqui.
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sábado, 21 de janeiro de 2012
O Brasil deve barrar a entrada de imigrantes haitianos?
Texto completo do professor Omar Ribeiro Thomaz. A versão reduzida foi publicada hoje, na sessão Tendências/Debates da Folha de S.Paulo
Omar Ribeiro Thomaz
Professor do Departamento de Antropologia da Unicamp e Pesquisador do Centro de Conflitos, Catástrofes e Mudanças Ambientais da Unicamp
Sebastião Nascimento
Sociólogo, pesquisador do Centro de Conflitos, Catástrofes e Mudanças Ambientais da Unicamp
Mesmo que por diversas razões não deva, vem há anos tentando, com o mesmo insucesso de todas as barreiras contra a imigração mundo afora.
Desde os meses seguintes ao terremoto de janeiro de 2010, o Ministério das Relações Exteriores vem anunciando a iminência de uma “invasão” de mais de 20.000 haitianos por ano. Dois anos depois, foram pouco mais que 3.500 os que chegaram e não necessariamente porque buscassem expressamente o Brasil quando partiram, mas porque, já estando em terras sul-americanas, viram a Guiana Francesa fechar suas fronteiras e as possibilidades de trabalho no Peru, no Chile e no Equador minguarem significativamente com a crise internacional.
Chegaram solicitando refúgio e, como profissionais suficientemente qualificados, a possibilidade de ocupar um posto de trabalho na economia latino-americana mais carente de mão de obra. Somente se pôde passar a considerar ilegal a condição desses indivíduos depois que o Ministério da Justiça determinou que cessasse a emissão de protocolos de solicitação de refúgio em fevereiro do ano passado. Impossibilitados de circular e trabalhar pela medida, passaram a se acumular nas pequenas cidades em ambos os lados das fronteiras com o Peru e a Bolívia. Não terá sido a primeira nem há de ser a última vez que se verão lançados à clandestinidade e à precariedade por conta de decisões oficiais das autoridades brasileiras.
No momento, o governo insiste em mobilizar vozes mais ou menos oficiais para tentar convencer uma opinião pública sensibilizada pela situação calamitosa dos haitianos tanto no Haiti como na diáspora latino-americana que o estabelecimento de um limite de 100 vistos mensais para para a concessão de vistos para haitianos e a vedação de qualquer possibilidade de entrada legítima para os haitianos que já se encontram na região constituiria na verdade um medida humanitária em resposta às condições deploráveis vividas nas fronteiras terrestres do norte do país. Fora das câmaras de eco da política oficial, poucos entenderam como uma vedação poderia ser uma benesse e não uma restrição.
Não há, no fundo, novidade alguma: para além de ignorar a especificidade dos ciclos migratórios haitianos (preferindo recorrer à denúncia vazia das famigeradas “rotas de tráfico humano”), o governo acaba por reapresentar, sob nova roupagem, a mesma diretriz histórica de cerceamento à imigração oriunda de determinados países ou regiões, independente da situação política enfrentada no país de origem ou das reais demandas da economia brasileira. Nesse episódio mais recente, o limite foi estabelecido ao sabor do arbítrio: não se apoiou em qualquer avaliação da demanda – certamente baixa se comparada com outros destinos possíveis que precedem o Brasil na preferência dos haitianos – e tampouco da dinâmica desta diáspora.
O temor de que os recém-chegados tragam suas famílias é absolutamente infundado: a diáspora haitiana não surgiu com o terremoto, existe há décadas, e praticamente todas as famílias haitianas têm parentes espalhados entre os Estados Unidos, a República Dominicana, Cuba e outras ilhas do Caribe, França, México, Venezuela, Canadá e cada vez mais também em países africanos. Seus melhores e mais bem formados membros são enviados pelas próprias famílias a países que acabam por se beneficiar enormemente com o potencial criativo dessa rica comunidade diaspórica.
Por outro lado, as remessas individuais de dinheiro do exterior constituem a única fonte segura de recursos para uma população acometida por sucessivas crises, particularmente deletéria no âmbito do sistema escolar, num país em que a educação é, em grande medida, privatizada e cara. Em meio à miríade de promessas de apoio externo e ao reduzido nível de aportes reais, as remessas da diáspora têm sido há anos os únicos recursos que efetivamente chegam ao destino certo, tendo representado não somente os fundos que mais prontamente estiveram à disposição de haitianos e haitianas após as sucessivas catástrofes recentes, como também constituem até o presente o grosso do investimento na reconstrução do país, enquanto os bilhões entregues à cooperação ou aos distintos braços das Nações Unidas se perdem na manutenção do próprio aparato internacional presente no país, bem como nos insondáveis corredores onde burocracia e corrupção se encontram. Se quisermos de fato apoiar a reconstrução do Haiti, a última coisa a fazer seria estabelecer qualquer barreira arbitrária à circulação de trabalhadores haitianos.
Logo após o terremoto, uma gigantesca onda de genuína solidariedade mobilizou a população brasileira em prol dos haitianos afetados pela catástrofe. Mas as estruturas governamentais e diplomáticas demonstraram não ter nem o preparo e nem a capacidade para lidar fosse com as ofertas de cá ou fosse com as demandas de lá. A pesada e ineficaz máquina burocrática brasileira é ainda mais surda e obtusa diante dos clamores de quem, além de não votar, ainda fala outra língua.
No momento, o governo mobiliza seus canais de divulgação para reempacotar medidas que vem sendo estudadas há tempos como parte de um conjunto mais amplo de ampliação da seletividade migratória no Brasil como se fossem uma resposta rápida à vexatória cobertura da imprensa internacional sobre a situação calamitosa dos haitianos impedidos de deixar a região fronteiriça, um calvário que se tem prolongado por mais de um ano em grande parte dos casos. Para além da mal velada incitação à xenofobia contida em não poucas declarações de agentes governamentais no que diz respeito aos potenciais riscos representados pelos haitianos, as instâncias oficiais se negam a dialogar com as próprias organizações nacionais que procuram oferecer apoio aos haitianos e compreender sua situação e suas carências.
A forma como o governo e seus agentes encaminham o debate revela um profundo divórcio com a sensibilidade da opinião pública nacional e recorre à tradicional disseminação de estereótipos e mistificações para evitar enfrentar-se com a necessidade de reformas profundas nas instituições voltadas para a absorção de imigrantes.
Na mesma tacada em que se criam barreiras discricionárias à vinda de haitianos (e de outros estrangeiros oriundos de países em desenvolvimento), numa política restritiva que deveria envergonhar um país que nas últimas décadas tanto se beneficiou com as remessas de sua própria diáspora, o governo brasileiro aplaude a chegada de dezenas de milhares de europeus, para os quais serão criadas facilidades para contornar a burocracia. É assim que nos reencontramos com nossa tradição secular de promoção, pelo Estado, de uma migração seletiva. Não há diferenças significativas de qualificação entre os bem acolhidos europeus e os vilipendiados haitianos, mas sim uma seletividade míope, que abandona qualquer avaliação minimamente apurada dos perfis pessoais dos potenciais imigrantes para se concentrar unicamente no status de seu país de origem. Talvez seja assim que complexos de inferioridade e mecanismo de autocomplacência se reproduzam, mas certamente não é assim que uma política migratória moderna e eficaz se concretiza.
****
O Brasil deve barrar a entrada de imigrantes haitianos?
Não.
Professor do Departamento de Antropologia da Unicamp e Pesquisador do Centro de Conflitos, Catástrofes e Mudanças Ambientais da Unicamp
Sebastião Nascimento
Sociólogo, pesquisador do Centro de Conflitos, Catástrofes e Mudanças Ambientais da Unicamp
Mesmo que por diversas razões não deva, vem há anos tentando, com o mesmo insucesso de todas as barreiras contra a imigração mundo afora.
Desde os meses seguintes ao terremoto de janeiro de 2010, o Ministério das Relações Exteriores vem anunciando a iminência de uma “invasão” de mais de 20.000 haitianos por ano. Dois anos depois, foram pouco mais que 3.500 os que chegaram e não necessariamente porque buscassem expressamente o Brasil quando partiram, mas porque, já estando em terras sul-americanas, viram a Guiana Francesa fechar suas fronteiras e as possibilidades de trabalho no Peru, no Chile e no Equador minguarem significativamente com a crise internacional.
Chegaram solicitando refúgio e, como profissionais suficientemente qualificados, a possibilidade de ocupar um posto de trabalho na economia latino-americana mais carente de mão de obra. Somente se pôde passar a considerar ilegal a condição desses indivíduos depois que o Ministério da Justiça determinou que cessasse a emissão de protocolos de solicitação de refúgio em fevereiro do ano passado. Impossibilitados de circular e trabalhar pela medida, passaram a se acumular nas pequenas cidades em ambos os lados das fronteiras com o Peru e a Bolívia. Não terá sido a primeira nem há de ser a última vez que se verão lançados à clandestinidade e à precariedade por conta de decisões oficiais das autoridades brasileiras.
No momento, o governo insiste em mobilizar vozes mais ou menos oficiais para tentar convencer uma opinião pública sensibilizada pela situação calamitosa dos haitianos tanto no Haiti como na diáspora latino-americana que o estabelecimento de um limite de 100 vistos mensais para para a concessão de vistos para haitianos e a vedação de qualquer possibilidade de entrada legítima para os haitianos que já se encontram na região constituiria na verdade um medida humanitária em resposta às condições deploráveis vividas nas fronteiras terrestres do norte do país. Fora das câmaras de eco da política oficial, poucos entenderam como uma vedação poderia ser uma benesse e não uma restrição.
Não há, no fundo, novidade alguma: para além de ignorar a especificidade dos ciclos migratórios haitianos (preferindo recorrer à denúncia vazia das famigeradas “rotas de tráfico humano”), o governo acaba por reapresentar, sob nova roupagem, a mesma diretriz histórica de cerceamento à imigração oriunda de determinados países ou regiões, independente da situação política enfrentada no país de origem ou das reais demandas da economia brasileira. Nesse episódio mais recente, o limite foi estabelecido ao sabor do arbítrio: não se apoiou em qualquer avaliação da demanda – certamente baixa se comparada com outros destinos possíveis que precedem o Brasil na preferência dos haitianos – e tampouco da dinâmica desta diáspora.
O temor de que os recém-chegados tragam suas famílias é absolutamente infundado: a diáspora haitiana não surgiu com o terremoto, existe há décadas, e praticamente todas as famílias haitianas têm parentes espalhados entre os Estados Unidos, a República Dominicana, Cuba e outras ilhas do Caribe, França, México, Venezuela, Canadá e cada vez mais também em países africanos. Seus melhores e mais bem formados membros são enviados pelas próprias famílias a países que acabam por se beneficiar enormemente com o potencial criativo dessa rica comunidade diaspórica.
Por outro lado, as remessas individuais de dinheiro do exterior constituem a única fonte segura de recursos para uma população acometida por sucessivas crises, particularmente deletéria no âmbito do sistema escolar, num país em que a educação é, em grande medida, privatizada e cara. Em meio à miríade de promessas de apoio externo e ao reduzido nível de aportes reais, as remessas da diáspora têm sido há anos os únicos recursos que efetivamente chegam ao destino certo, tendo representado não somente os fundos que mais prontamente estiveram à disposição de haitianos e haitianas após as sucessivas catástrofes recentes, como também constituem até o presente o grosso do investimento na reconstrução do país, enquanto os bilhões entregues à cooperação ou aos distintos braços das Nações Unidas se perdem na manutenção do próprio aparato internacional presente no país, bem como nos insondáveis corredores onde burocracia e corrupção se encontram. Se quisermos de fato apoiar a reconstrução do Haiti, a última coisa a fazer seria estabelecer qualquer barreira arbitrária à circulação de trabalhadores haitianos.
Logo após o terremoto, uma gigantesca onda de genuína solidariedade mobilizou a população brasileira em prol dos haitianos afetados pela catástrofe. Mas as estruturas governamentais e diplomáticas demonstraram não ter nem o preparo e nem a capacidade para lidar fosse com as ofertas de cá ou fosse com as demandas de lá. A pesada e ineficaz máquina burocrática brasileira é ainda mais surda e obtusa diante dos clamores de quem, além de não votar, ainda fala outra língua.
No momento, o governo mobiliza seus canais de divulgação para reempacotar medidas que vem sendo estudadas há tempos como parte de um conjunto mais amplo de ampliação da seletividade migratória no Brasil como se fossem uma resposta rápida à vexatória cobertura da imprensa internacional sobre a situação calamitosa dos haitianos impedidos de deixar a região fronteiriça, um calvário que se tem prolongado por mais de um ano em grande parte dos casos. Para além da mal velada incitação à xenofobia contida em não poucas declarações de agentes governamentais no que diz respeito aos potenciais riscos representados pelos haitianos, as instâncias oficiais se negam a dialogar com as próprias organizações nacionais que procuram oferecer apoio aos haitianos e compreender sua situação e suas carências.
A forma como o governo e seus agentes encaminham o debate revela um profundo divórcio com a sensibilidade da opinião pública nacional e recorre à tradicional disseminação de estereótipos e mistificações para evitar enfrentar-se com a necessidade de reformas profundas nas instituições voltadas para a absorção de imigrantes.
Na mesma tacada em que se criam barreiras discricionárias à vinda de haitianos (e de outros estrangeiros oriundos de países em desenvolvimento), numa política restritiva que deveria envergonhar um país que nas últimas décadas tanto se beneficiou com as remessas de sua própria diáspora, o governo brasileiro aplaude a chegada de dezenas de milhares de europeus, para os quais serão criadas facilidades para contornar a burocracia. É assim que nos reencontramos com nossa tradição secular de promoção, pelo Estado, de uma migração seletiva. Não há diferenças significativas de qualificação entre os bem acolhidos europeus e os vilipendiados haitianos, mas sim uma seletividade míope, que abandona qualquer avaliação minimamente apurada dos perfis pessoais dos potenciais imigrantes para se concentrar unicamente no status de seu país de origem. Talvez seja assim que complexos de inferioridade e mecanismo de autocomplacência se reproduzam, mas certamente não é assim que uma política migratória moderna e eficaz se concretiza.
domingo, 15 de maio de 2011
Mais um de ET
Como lidar com a alteridade? Talvez porque respondam a essa pergunta que filmes com temática extraterrestre causem tanto fascínio. Afinal, eles nos trazem diversas possibilidades, que não raro reverberam na condição de trato com "o outro" menos extremado - como imigrantes, por exemplo. O filme Distrito 9, de 2009, escancarou a analogia , e pudemos ver nas telas brasileiras, ainda que por pouco tempo, a metáfora explicitada.
O mesmo não aconteceu com o filme Monsters, de 2010, com direção de Gareth Edwards, que não estreou nas salas de cinema por aqui. Em suma, a história se passa nas seguintes condições: Há menos de uma década, a NASA descobriu a possibilidade de vida extra-terrestre no sistema solar. Foram coletadas amostras para comprovação, mas, quando a sonda espacial voltava à Terra, houve um acidente que fez com que ela se rompesse no território mexicano fronteiriço ao EUA. Depois de algum tempo, formas estranhas de vida começaram a surgir. Uma área correspondente a metade do México foi posta como Zona Infectada, e proibida a circulação de pessoas.
Desta forma, as proximidades e a própria ZI passam a viver em constante tensão. As forças militares americanas e mexicanas tentam conter as criaturas dentro do limite estipulado, através de bombas e armas químicas. Porém, muitas vezes, as empreitadas acabem vitimando também seres humanos que vivem em áreas adjacentes.
É a necessidade de ir do México para os EUA que mobilizam os dois personagens principais a atravessarem a ZI, e correr o risco de contato com os extraterrestres. Criaturas mostradas no filme com refletida parcimônia, pois o interesse não é o de imaginar como as elas lidam com os homens, mas como os homens lidam com as criaturas e com eles mesmos.
A produção ganhou certa repercussão na Inglaterra e nos EUA porque, além de ser um filme de baixo orçamento (custou por volta de $800,000, segundo o IMBD), também foi filmado com base na improvisação. Apenas os protagonistas são atores profissionais, e mesmo assim, as cenas foram filmadas dando-lhes apenas linhas gerais de ação, sem falas fixas. Aparentemente, também haverá uma continuação (que tende já a ser milionária), mas com outra direção.
Ótimo filme, entusiasticamente recomendado. Abaixo, uma mini-entrevista com o diretor Gareth Edwards, feito para o festival de cinema de Toronto.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Cavalos à la Rousseau - Antropologia e Meio Ambiente I
A partir de agora, começo a desenterrar alguns trabalhos feitos para a faculdade que acho que cabem bem neste blog. Para começar, parte de um trabalho feito para a disciplina de Antropologia e Meio Ambiente, do IFCH-Unicamp, ministrado pela profª Nádia Farage (monitoria de Rafael Barbosa), no 1º semestre de 2010.
***
PS: Cliquem na legenda das imagens para verem os quadros em um tamanho decente!![]() |
| Napoleão no campo de batalha de Eylau, 1807. Antoine-Jean Gros, 1808, Óleo sobre tela, 521 X 784 cm. Museu do Louvre, Paris, França |
![]() |
| Batalha de Austerlitz, 02 de dezembro de 1805. François Gerard, 1810, Óleo sobre tela, 510 X |
O quadro de Antoine-Jean Gros, pintado em 1808, representa Napoleão Bonaparte no campo de batalha de Eylau na Polônia, onde, em fevereiro de 1807, o exército francês derrotou o russo em um choque sangrento que deixou mais de 50.000 feridos e mortos. Como não era raro, o quadro foi feito sob encomenda pelo governo francês, a partir da escolha do artista via competição. (MUSÉE DU LOUVRE, 2010)
O que nos cabe assinalar nesse quadro é como ele está embebido em uma atmosfera que vai ao encontro do Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Como se sabe, esse ensaio foi realizado para um concurso da Academia de Dijon em 1754, e previa que os concorrentes respondessem a seguinte questão: Qual é a origem da desigualdade entre os homens, e é ela autorizada pela lei natural? O texto de Rousseau não foi vencedor da competição e não agradou os jurados, sendo, no entanto, publicado pelo autor em 1755.
Nossa hipótese é de que a obra de Gros dialoga inteiramente com o escrito de Rousseau, por trazer em seu bojo uma temática que se foca na piedade. O quadro foi feito com cores escuras, em uma atmosfera de luto, onde como protagonista figura Napoleão Bonaparte altivo e misericordioso visitando o campo de batalha. O semblante de Napoleão é sério, e alguns comentaristas dizem que o imperador, estando em Eylau, teria exclamado: “Se todos os reis da terra pudessem ter essa visão, eles seriam menos propensos às guerras e conquistas” (NAPOLEON.ORG, 2010). O quadro é construído de forma a mostrar o horrível resultado das batalhas humanas, e a altivez francesa de portar-se piedosa diante dos acontecimentos. Não existe uma comemoração frente aos restos humanos ou cossacos agonizantes que resultam do combate, mas uma resignação pesarosa. Alguns soldados franceses visam ajudar combatentes russos feridos, que estranham o acontecido, como é possível ver principalmente pela dupla no campo direito do quadro. O cavalo em que monta Napoleão, por sua vez, traz em seu semblante um choque de repugnância frente ao cenário já descrito por Rousseau (1973, p. 259), e outras vezes figurado pelo artista – como, por exemplo, no quadro A Batalha de Abukir, de 1806.
O quadro exprime pela simbiose de sentimento entre os animais e humanos presentes a piedade como elo entre natureza e cultura:
Certo, pois a piedade representa um sentimento natural que, moderando em cada individuo a ação do amor de si mesmo, concorre para a conservação mútua de a espécie. Ela nos faz, sem reflexão, socorrer aqueles que vemos sofrer; ela, no estado de natureza, ocupa o lugar das leis, dos costumes e da virtude, com a vantagem de ninguém sentir-se tentado a desobedecer à sua doce voz; ela impedirá qualquer selvagem robusto de tirar uma criança fraca ou a um velho enfermo a subsistência adquirida com dificuldade, desde que ele mesmo possa encontrar a sua em outra parte; ela, em lugar dessa máxima sublime da justiça raciocinada – Faze a outrem o que desejas que façam a ti -, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, mas talvez mais útil do que a precedente – Alcança teu bem com o menor mal possível para outrem. Numa palavra, antes nesse sentimento natural do que nos argumentos sutis deve procurar-se a causa da repugnância que todo homem experimentaria por agir mal, mesmo independentemente das máximas da educação. (ROUSSEAU, 1973, p. 260).
O quadro, desta maneira, consegue condensar o argumento de Rousseau das ambigüidades que rondam o sentimento de piedade. Natural de homens e animais, é a piedade que serve de estopim para a aproximação humana em sociedade, e, portanto, como possibilitadora da cultura. No entanto, sendo o estado de sociedade como o propicio à violência e à degeneração humana, esta condição leva às tristes guerras que, mais uma vez, despertam o sentimento de piedade para com o vencido.
É claro que essa construção do artista também vinha responder a grande impopularidade que o combate de Eylau causara na França, mas, no entanto, ainda sofreu severas críticas por trazer uma visualidade da guerra como cenário negativo.
A singularidade do quadro de Gros pode ser observada quando comparada a outros quadros de batalha, como o de Gerard François, sobre a Batalha de Austerlitz.
Neste quadro, os combatentes não demonstram nenhum incômodo frente aos cadáveres resultantes da guerra, nem os cavalos mostram-se cuidadosos para que em seu galope desviem-se de restos mortais. Aliás, é possível observar o contrário, dois deles estão com suas patas ao alto, na iminência de pisar em soldados vencidos. A atmosfera geral é de alívio e celebração ainda entusiasta frente à batalha recentemente vencida, anunciada pela chegada de raios de sol através de nuvens escuras e a entrega do príncipe Nicolau Repnin à Napoleão.
Fontes específicas:
MUSÉE DU LOUVRE (Comp.). Napoleon on the Battlefield of Eylau. Disponível em: <http://www.louvre.fr/llv/oeuvres/detail_notice.jsp?CONTENT%3C%3Ecnt_id=10134198673225732&CURRENT_LLV_NOTICE%3C%3Ecnt_id=10134198673225732&FOLDER%3C%3Efolder_id=9852723696500815&baseIndex=45&bmLocale=en>. Acesso em: 25 maio 2010.
NAPOLEON.ORG (Comp.). KEY PAINTING - FIRST EMPIRE. Disponível em: <http://www.napoleon.org/en/essential_napoleon/key_painting/premier_empire.asp>. Acesso em: 25 maio 2010.
WIKIMEDIA COMMONS. The Battle of Abukir. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gros_-_The_Battle_of_Abukir.png>. Acesso em: 15 jun. 2010.
WEB GALLERY OF ART (Comp.). Napoleon Bonaparte on the Battlefield of Eylau, 1807. Disponível em: <http://www.wga.hu/frames-e.html?/html/g/gros/7eylau.html>. Acesso em: 25 maio 2010.
ROUSSEAU, Jean Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. In: ROUSSEAU, Jean Jacques. Jean Jacques Rousseau: Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 207-326.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Os nuer do sul do Sudão
Para quem se aventura nos estudos antropológicos, é caminho incontornável a leitura do clássico "Os Nuer: Uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota" de Evans-Pritchard, escrito a partir de pesquisas de campo do autor no período que vai de 1930 a 1936. As razões de tamanha importância são várias, e entre elas podemos assinalar o esforço em compreender - e construir - uma 'estrutura social' específica, de forma a trazer para o leitor insights do modo de vida e de visão de mundo dos nuer. E tudo isso, feito de forma clara e verossímil, o que não é de pouca importância.
Está claro que, depois da década de 1930, e do estudo de Evans-Pritchard, essas pessoas - os nuer - não desapareceram, e bem, até aí, nenhuma novidade lógica. No entanto, se elas não desapareceram, como elas estão? Em 1996 foi publicado pela University of California Press o livro: "Nuer Dilemmas: Coping with Money, War, and the State", de Sharon Hutchinson, hoje professora da Universidade Wisconsin-Madison (currículo e outras informações aqui), que respondeu parte dessas questões. Diferentemente do trabalho de EP, que na ocasião de seu estudo analisou as incursões árabes pelo território nilota como algo de pouca importância para se entender a lógica local, Hutchinson destaca como central para compreender a dinâmica social nuer a relação estabelecida entre o norte e o sul do Sudão. Afinal, desde a pesquisa de Evans-Pritchard o domínio colonial anglo-egípcio havia se esfacelado (1898 - 1955), e o país passara por dezessete anos de guerra civil intensa (1955-1972). Assim, na 'boca do povo nuer' não estavam mais diferentes assuntos que rodeavam vacas, bois e atividades pastoris, mas sim, discussões sobre política nacional, movimento de tropas armadas na região, o petróleo abaixo dos pés etc. É neste novo cenário que a antropóloga faz seu estudo.
Estudo este que já faz mais de quinze anos e a pergunta então retorna: como estão os nuer, hoje? Quem procurar informações sobre o tema nos jornais brasileiros fica na mesma: as notícias veiculadas sobre o Sudão são poucas e superficiais. Em 2001, Beatriz Perrone Moisés escreveu um artigo sobre os conflitos recentes na região, mas o texto já completa 10 anos, e embora estejamos cientes que no início deste ano (2011) o país passou por um plebiscito que votou a independência da região sul do país, ainda ficamos carentes de informações mais atualizadas.
Neste sentido, listei alguns sites que podem ajudar aos interessados a saber novas informações. Embora a partir delas não possamos saber como estão 'os nuer', podemos ter um vislumbre da situação sudanesa em geral, o que é melhor do que nada:
- O site mais didático que encontrei é o do jornal The New York Times, em inglês. Em uma página que reúne informações e reportagens sobre o país, é explicado o movimento de independência do sul sudanes com ajuda de fotos, infográficos e vídeos. É o site que mais vale a pena visitar, para se informar rapidamente sobre a situação na região.
- Outro site, em francês, é o da TV5. A TV5 possui programas exclusivamente voltados para o continente africano, inclusive um telejornal diário, que pode ser visto online. No entanto, as informações sobre o sul do Sudão não estão tão bem sistematizadas como no site do The New York Times.
- Por último, o portal South Sudan News Agency, exclusivamente voltado para assuntos da região.
Bom proveito!
Está claro que, depois da década de 1930, e do estudo de Evans-Pritchard, essas pessoas - os nuer - não desapareceram, e bem, até aí, nenhuma novidade lógica. No entanto, se elas não desapareceram, como elas estão? Em 1996 foi publicado pela University of California Press o livro: "Nuer Dilemmas: Coping with Money, War, and the State", de Sharon Hutchinson, hoje professora da Universidade Wisconsin-Madison (currículo e outras informações aqui), que respondeu parte dessas questões. Diferentemente do trabalho de EP, que na ocasião de seu estudo analisou as incursões árabes pelo território nilota como algo de pouca importância para se entender a lógica local, Hutchinson destaca como central para compreender a dinâmica social nuer a relação estabelecida entre o norte e o sul do Sudão. Afinal, desde a pesquisa de Evans-Pritchard o domínio colonial anglo-egípcio havia se esfacelado (1898 - 1955), e o país passara por dezessete anos de guerra civil intensa (1955-1972). Assim, na 'boca do povo nuer' não estavam mais diferentes assuntos que rodeavam vacas, bois e atividades pastoris, mas sim, discussões sobre política nacional, movimento de tropas armadas na região, o petróleo abaixo dos pés etc. É neste novo cenário que a antropóloga faz seu estudo.
Estudo este que já faz mais de quinze anos e a pergunta então retorna: como estão os nuer, hoje? Quem procurar informações sobre o tema nos jornais brasileiros fica na mesma: as notícias veiculadas sobre o Sudão são poucas e superficiais. Em 2001, Beatriz Perrone Moisés escreveu um artigo sobre os conflitos recentes na região, mas o texto já completa 10 anos, e embora estejamos cientes que no início deste ano (2011) o país passou por um plebiscito que votou a independência da região sul do país, ainda ficamos carentes de informações mais atualizadas.
Neste sentido, listei alguns sites que podem ajudar aos interessados a saber novas informações. Embora a partir delas não possamos saber como estão 'os nuer', podemos ter um vislumbre da situação sudanesa em geral, o que é melhor do que nada:
- O site mais didático que encontrei é o do jornal The New York Times, em inglês. Em uma página que reúne informações e reportagens sobre o país, é explicado o movimento de independência do sul sudanes com ajuda de fotos, infográficos e vídeos. É o site que mais vale a pena visitar, para se informar rapidamente sobre a situação na região.
- Outro site, em francês, é o da TV5. A TV5 possui programas exclusivamente voltados para o continente africano, inclusive um telejornal diário, que pode ser visto online. No entanto, as informações sobre o sul do Sudão não estão tão bem sistematizadas como no site do The New York Times.
- Por último, o portal South Sudan News Agency, exclusivamente voltado para assuntos da região.
Bom proveito!
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